Reitor da UniFG discursa na Câmara de Deputados em sessão solene que celebrou os 100 anos de Guanambi

Publicado em 7 de agosto de 2019.


O Reitor do Centro Universitário UniFG, Prof. Georgheton Nogueira, discursou na sessão solene que aconteceu na manhã desta quarta-feira (07), no Plenário Ulysses Guimarães da Câmara de Deputados. A sessão foi realizada em celebração ao centenário de Guanambi, cidade onde está localizada a sede da UniFG. A homenagem foi de autoria do deputado Charles Fernandes, que presidiu a mesa. Também estavam presentes representantes políticos e da sociedade civil guanambiense.

Em seu discurso, o Reitor afirmou que a UniFG vem consolidando uma plataforma de estudo dos diversos temas relacionados ao semiárido, sendo reconhecida como instrumento de discussão técnica e científica dos desafios regionais.

 

“Conhecimento, empresas inovadoras, poder público e sociedade civil compõem forças extraordinárias capazes de imprimir novos desenhos para as políticas públicas, desenvolvimento de projetos de referência e instrumentos de estímulos a modelos de negócios criativos. Essa agenda é complexa, seguramente. Mas é central para o futuro de Guanambi”, afirmou.

Leia o discurso na íntegra.

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Sessão solene em homenagem aos 100 anos de Guanambi
Câmara dos Deputados -Brasília-DF, 07 de agosto de 2019

 

A trajetória de um município é, antes de tudo, um tratado sobre o tempo histórico de uma gente. Sabemos desde algumas teorias do Estado-nação que a narrativa que liga o sentido comum de um povo passa pela memória compartilhada, pela língua falada, por tradições e costumes, guardando as noções de aproximação, que constroem as identidades.

Passa ainda pelas múltiplas mediações com o território, seus aspectos materiais, que viabilizam a vida objetiva, e seu caráter simbólico, que estrutura subjetivamente os seres humanos, inscrevendo sentido existencial em suas jornadas.  Passa por um passado dividido e uma promessa de destino, no limite, tirana a todos.

O município é o primeiro terreno extenso da esfera pública, porque o terreno recolhido é a nossa família, no espaço da nossa morada quando nascemos. É, portanto, no município, que a cidadania se processa enquanto conceito e prática, se desdobrando no pacto que constitui a Nação. E hoje, ao homenagearmos Guanambi, resgatamos esses marcos gerais da nossa história, mas lembremos as mensagens que se constituíram como registros no seu primeiro centenário.

Guanambi nos guarda uma rica mensagem de respeito ao passado, aos nossos antepassados, que insistiram na viabilidade de um território marcado por ressalvas da sua condição de semiárido, onde a irregularidade e a quase sempre escassez das chuvas impuseram um duelo constante com a existência humana, mas ajudaram em conformar uma racionalidade viçosa no fazer, resiliente no adequar, corajosa no enfrentar e confiante no refazer, traços que dão conteúdo, hoje, a uma cultura empreendedora que define a natureza da cidade.

Devemos um tributo a estes antepassados, que no quadro de dificuldades e dores que enfrentaram, deixaram um legado relevante para o futuro. Importa lembrar, quando avançamos no século XXI, testemunhando o complexo de soluções tecnológicas, a expansão e consolidação dos mercados, a integração entre as regiões e diante a evolução institucional que experimentamos ao longo dos anos, que a vida no semiárido nordestino, assim como em muitas partes do Brasil, persiste amargando o peso das distorções que o desenvolvimento nacional carregou no rastro do progresso, que fora ineficiente em irradiar muitas das conquistas humanas que assentam as bases da nossa civilização.

A história de Guanambi também nos manda a mensagem do esforço de um povo no enfrentamento das tragédias que marcam os ciclos históricos. Assim como tantas outras formações humanas distribuídas no território nacional, Guanambi antes se estabeleceu como povoado no último quartel do século XIX, no percurso desses fluxos de seres humanos que cortaram o interior do Brasil em busca de oportunidades nas dispersas ocupações herdadas do processo de colonização. Durante quase todo o século XX, Guanambi se manteve imerso em circunstâncias locais, com economia de baixo dinamismo centrada na agropecuária e politicamente restrita às relações de poder locais.

A partir do final dos anos 70 do século XX, uma inflexão decisiva ocorre em Guanambi com o desenvolvimento em grande escala e de natureza empresarial da produção algodoeira, principalmente nas férteis terras do Vale do Iuiu, que tivera suas florestas substituídas por grandes fazendas levadas a termo nos padrões da revolução verde da agricultura dos anos 60. Esse movimento, ao mesmo tempo em que implicava um passivo ambiental de considerável impacto para as condições ecológicas da região, marcando-a severa e definitivamente, promoveu um intenso processo de expansão econômica da cidade de Guanambi, que se constituiu como base da indústria de beneficiamento da produção, além de concentrar as operações e os instrumentos das políticas de fomento promovidas pelo governo para a atividade algodoeira. Em termos históricos, esse fenômeno intensificou a integração de Guanambi às economias regional, nacional e mesmo internacional.

O ciclo de crescimento baseado na produção algodoeira se esgotou e a cidade amargou o esvaziamento econômico nos anos 90, desabilitando parte considerável da infraestrutura produtiva e do seu tecido social. A reação vem no início deste século, e Guanambi tornou-se um importante centro econômico e financeiro no centro-sul baiano, estruturando serviços de saúde e educação e um amplo e variado comércio como referência, em maior ou menor grau, para um território compreendido por cerca de 60 municípios onde vive uma população aproximada de 1 milhão de habitantes, distribuídos nas regiões baianas Serra Geral, Médio São Francisco, Oeste, Sudoeste e extremo norte de Minas Gerais. Essa condição de referência em comércio e serviços impulsiona um intenso intercâmbio de conhecimento e recursos, contribuindo para o aperfeiçoamento das políticas públicas, do aparato institucional, das práticas de mercado e do debate público sobre os mais diversos temas.

E quando verso sobre esse registro da história econômica da região, não intento outra abordagem que não seja realçar a capacidade de reconstrução de um povo. Porque isto constitui um elemento chave no imaginário social de um tempo, impulsionando uma sociedade a assumir tarefas históricas caras ao seu destino.
Guanambi participa de importantes projetos no horizonte deste século. Ao lado de Caetité, Igaporã e Pindaí, possui um dos maiores complexos de energia eólica da América Latina; reúne projetos de energia solar, com capacidade para tornar-se referência no setor, além de integrar área de expansão ferroviária, com potencial para articulação de outras cadeias produtivas, abrindo novas possibilidades para a economia regional.

Mas fundamentalmente, Guanambi envia uma mensagem para o futuro. Como centro dinâmico de uma região, sua condição de referência instaura responsabilidades além das suas questões locais. Guanambi reúne, atualmente, importantes centros de produção de saber. Temos o Centro Universitário UNIFG, instituição que represento, a Universidade do Estado da Bahia-UNEB e o Instituto Federal Baiano, representadas por seus diretores nesta sessão, além de outras instituições de ensino superior e uma vasta rede de ensino público e privado existente no município. Temos um poder público apto a articular políticas públicas afinadas às complexidades regionais, empresas inovadoras e uma sociedade civil que sempre respondeu aos desafios de Guanambi.

Trata-se de uma base institucional capaz de realizar a interlocução do local com o universal, sem romper a integralidade das grandes questões humanas, que por mais que sejam lidas em termos macros, incidem nos microcosmos das nossas vidas individuais e coletivas. Eis um desafio que perpassa a articulação do contexto local com as agendas globais do nosso tempo. Explico. De todas as crises explosivas da economia capitalista, a ambiental acumula tragédias dificilmente reversíveis, e apenas desloca suas contradições para frente, acumulando em gravidade os problemas que, somados à barbárie social, assumem proporções que ameaçam a humanidade em conflitos cada vez mais ingovernáveis. As instituições de comando político no mundo precisarão desenvolver instrumentos de políticas e moldá-los para um redirecionamento da forma como a economia se organiza e produz, tendo em vista a contenção dessa crise. Esse movimento se situa próximo à uma necessidade histórica denominada revolução industrial verde.

O que tem Guanambi com isso? Guanambi é uma cidade empreendedora, tem vocação inovadora, através das suas empresas e organizações da sociedade civil; está no semiárido nordestino, tem pela frente o enfrentamento dos efeitos crescentes das mudanças climáticas e precisa solucionar passivos de ordem social e econômica herdados do seu processo de desenvolvimento. Guanambi já reúne agendas compatíveis com essa discussão, pois é base de infraestrutura moderna na produção de energia proveniente dos ventos e do sol e congrega importantes centros de formação. Mas precisamos avançar na pesquisa sobre os nossos biomas, como a caatinga e o cerrado, reconhecendo o valor ecológico que portam para a segurança do território e ressignificando-os de modo a superarmos a relação predatória que marcam as atividades econômicas e compreendendo-os como base de recursos para o desenvolvimento responsável da biotecnologia, do manejo dos recursos hídricos e genéticos que compõe um patrimônio valioso da nossa região, inclusive como meio de geração de emprego e renda em padrões qualificados para o nosso povo. Em resumo, uma economia mais ecológica que inspire outra infraestrutura produtiva, coerente com a nossa condição de semiárido, atenta aos fundamentos de uma convivência necessária.

A UNIFG, a propósito, criou e vem consolidando o Observatório UNIFG do Semiárido Nordestino, como espaço de estudo dos diversos temas relacionados ao semiárido e como instrumento de discussão técnica e científica dos desafios regionais. Na mesma linha, iniciou a abertura de programas de pós-graduação stricto sensu, a nível de mestrado e de doutorado, como meio de envolver a região no debate e na produção de conhecimento científico qualificado.

Conhecimento, empresas inovadoras, poder público e sociedade civil compõem forças extraordinárias capazes de imprimir novos desenhos para as políticas públicas, desenvolvimento de projetos de referência e instrumentos de estímulos a modelos de negócios criativos. Essa agenda é complexa, seguramente. Mas é central para o futuro de Guanambi. E as escalas políticas, que balanceiam os limites de atuação institucional, encerrados em municípios, regiões, estado e União, podem fluir de forma convergente em muitos pontos, quando o poder público local, especialmente, tornar-se capaz de atuar como promotor desse processo, através de consórcios regionais ou fazendo uso dos instrumentos convencionais que dispõe para a disciplina das atividades econômicas e das políticas que viabiliza no âmbito do seu território. Quem tem espírito público, pode até adequar a natureza da atuação política, mas não a restringe em escalas de alcance institucional imediato, não impõe como barreira limites geopolíticos na definição das responsabilidades históricas.

Este alcance tem outros horizontes, pois esta compreensão é mais uma pulsão voltada à superação das distâncias que marcam as relações entre as regiões brasileiras. Guanambi é parte desse movimento porque vem se dotando de condições institucionais e de experiências excepcionais que transferem cada vez mais protagonismo aos diversos atores decisivos na vida do seu território. Noutras palavras, Guanambi guarda uma parte de um movimento importante de um Brasil que se pretende integrado num projeto de desenvolvimento nacional. É da consolidação democrática que estamos falando quando pensamos no desenvolvimento das condições para que um território e seu povo pense sobre seu futuro e faça suas escolhas. E não há um futuro civilizatório se essa tarefa não for cumprida.

Numa perspectiva simbólica, Guanambi e a região do seu entorno guardam referências históricas, tradições e uma memória de parte da gente nordestina que constituem elementos definidores de formas e identidades no seio da diversidade da nação. Noutros termos, é um rico território representativo da diversidade e da potência realizadora do povo brasileiro. Temos um diálogo valioso para compartilhar no mundo. E eu confio na mensagem da nossa gente sertaneja.

Parabéns, Guanambi!

Georgheton Melo Nogueira
Reitor do Centro Universitário UniFG